segunda-feira, 2 de março de 2009

O DEUS-VERME

Fator universal do transformismo.

Filho da teleológica matéria,

Na superabundância ou na miséria,

Verme - é o seu nome obscuro de batismo.


Jamais emprega o acérrimo exorcismo

Em sua diária ocupação funérea,

E vive em contubérnio com a bactéria,

Livre das roupas do antropomorfismo.


Almoça a podridão das drupas agras,

Janta hidrôpicos, rói vísceras magras

E dos defuntos novos incha a mão...


Ah! Para ele é que a carne podre fica,

E no inventário da matéria rica

Cabe aos seus filhos a maior porção!



Nesta poesia, podemos encontrar várias das características do poeta Augusto dos Anjos, como por exemplo, a comparação de Deus com um verme, a fixação pela morte (Em sua diária ocupação funérea), o pessimismo e a angústia (Na superabundância ou na miséria), uso de termos anti-poéticos (Verme - é o seu nome obscuro de batismo) (Ah! Para ele é que a carne podre fica).

Assim, Augusto tenta comparar Deus com um verme, ao passo que responsabiliza ambos, pela absorvição terrena da carne. Comparar Deus com um verme? Não é a toa que ele era considerado o "Poeta de Mal Gosto".



Ítalo Bevilaqua

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